segunda-feira, setembro 11, 2006

O artista é o criador de coisas belas...

"O ARTISTA é o criador de coisas belas.
Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte.
O crítico é aquele que pode traduzir, de um modo diferente ou por um novo processo, a sua impressão das coisas belas. A mais elevada, como a mais baixa, das formas de crítica é uma espécie de autobiografia. Os que encontram significação feias em coisas belas, são corruptos sem ser encantadores.
Isto é um defeito.
Os que encontram belas significação em coisas belas são cultos. Para estes há esperança.
Existem os eleitos para os quais as coisas belas significam unicamente Beleza.
Um livro não é, de modo algum, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.
A aversão do séc. XIX ao Realismo é a cólica de Calibã por ver seu rosto num espelho.
A aversão do século XIX ao Romantismo é a cólera de Calibã por não ver o seu rosto num espelho. A vida moral do homem faz parte do tema para o artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. O artista nada deseja provar. Até as coisas verdadeiras podem ser provadas. Nenhum artista tem simpatias éticas. A simpatia ética num artista constituiu um maneirismo de estilo imperdoável. O artista jamais é mórbido. O artista tudo pode exprimir. Pensamento e linguagem são para o artista instrumento de uma arte.
Vício e virtude são para o artista materiais para uma arte. Do ponto de vista da forma, o modelo de todas as artes é a do músico. Do ponto de vista do sentimento, é a profissão do actor.
Toda arte é ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que buscam sob a superfície, fazem-no por seu próprio risco. Os que procuram decifrar o símbolo, correm também seu próprio risco.
Na realidade, a arte reflecte o espectador e não a vida. A divergência de opiniões sobre uma obra de arte indica que a obra é nova, complexa e vital. Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo. Podemos perdoar a um homem por haver feito uma coisa útil, contanto que não a admire. A única desculpa de haver feito uma coisa inútil é admirá-la intensamente.
Toda a arte é completamente inútil."

in "O retrato de Dorian Gray", Oscar Wilde

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